Crítica ao "Manifesto contra o trabalho": acerca do trabalho abstrato e da abstração da crítica

 

por Ilana Amaral

 

"Trabalharás com o suor do teu rosto" é a maldição que Jeovah lançou a Adão e é a maneira pela qual Adam Smith concebe o trabalho. O "repouso" seria, em troca, o estado correspondente à "liberdade" e à "felicidade"(...) porém, o que Smith ignorará sempre é que a atividade da liberdade consiste precisamente em superar esses obstáculos [que o trabalho deve superar] e que é preciso, além do mais, despojar os fins exteriores de seu caráter de pura necessidade natural para estabelecê-los como fins que o indivíduo fixa a si mesmo, de modo que cheguem a ser a realização e a objetivação do sujeito; dito de outro modo, a liberdade real, cuja atividade é o trabalho. (Marx, Grundrisse, 1857-58)

O Manifesto contra o trabalho, publicado em junho deste ano na Alemanha e em agosto no Brasil, pelo grupo Krisis, apresenta, no velho e bom estilo polêmico e irônico dos escritos de Marx, aquilo que poderia, a uma primeira vista, passados 151 anos da publicação do Manifesto do Partido Comunista, ser chamado de uma atualização da perspectiva crítico-revolucionária do Manifesto de Marx e Engels.

Por que "a uma primeira vista"? O Manifesto do Krisis traz elementos fundamentais de uma crítica revolucionária do mundo contemporâneo. Sem sombra de dúvidas, os elementos essenciais aí apresentados - a crítica do domínio do trabalho (abstrato) sobre toda a existência e à crise provocada por tal domínio, em seu desenvolvimento histórico concreto, junto à crítica do Estado e da política daí decorrentes - são, de fato, os elementos centrais da crise gravíssima enfrentada pela humanidade nos dias que correm. Ao longo de todo o texto, entretanto, é possível observar o desdobramento de um mesmo e único equívoco fundamental, que se não compromete inteiramente o valor crítico do Manifesto contra o trabalho, faz com que a análise do capitalismo contemporâneo e as perspectivas de luta revolucionária pela sua abolição fiquem debilitadas. Mas vamos por partes...

Da crise e da morte do trabalho (abstrato)

O elemento central do Manifesto é a constatação da crise terminal da sociedade do trabalho (abstrato). O texto, aberto com uma paráfrase ao Manifesto do Partido Comunista, constata a ronda espectral do trabalho (abstrato) no mundo. O desenvolvimento do capitalismo em nossos dias é aí apresentado, fundamentalmente, a partir da diminuição absurda da presença do trabalho vivo no processo produtivo, da alteração, levada à cabo pela revolução científico-técnica, na composição do capital no capitalismo contemporâneo, ou seja, a partir da tendência da abolição de parcelas cada vez maiores de postos de trabalho em função de uma estrutura produtiva que a cada dia dispensa a presença de trabalho vivo e incorpora mais trabalho morto como fundamento da produção. Este elemento, corretamente apontado no Manifesto do grupo Krisis, é, com efeito, como desenvolvimento da contradição essencial do capitalismo, a marca mais clara da crise econômica e social sem precendentes que hoje vivenciamos. São os mortos carregando os vivos... ou melhor, empurrando os vivos para os abismos da marginalidade do processo produtivo - da produção, da circulação e do consumo - e assim para a morte, não só física mas também simbólica de um número cada vez maior de indivíduos.

Diante de uma sociedade que compreende o homem segundo o modelo de auto-realização pensada a partir do trabalho (abstrato), a eliminação da possibilidade de acesso ao mercado de trabalho implica não só a eliminação física dos indivíduos por absoluta incapacidade de inclusão no mundo do tráfico, no mundo da mercadoria, mas também a sua morte simbólica, anterior a esta, na assunção, no plano das consciências individuais, do desemprego como "incapacidade", "incompetência", enfim, como falência pessoal diante de um mundo no qual só os "melhores" sobrevivem. O óbvio fascismo da condição atual na qual são jogadas parcelas cada vez maiores da humanidade encontra, no Manifesto do Krisis, seu fundamento apresentado e denunciado. O desemprego estrutural, a miséria, a tendência de "africanização" de parcelas cada vez maiores em todo o globo, inclusive na Europa, EUA e Japão, através da eliminação definitiva das possibilidades de inclusão da força de trabalho no tráfico mundial de mercadorias são corretamente apontadas como a marca definitiva do mundo contemporâneo, marca decorrente da apropriação privada da produção social.

O que em todo o texto o Krisis denuncia com vigor é o movimento autônomo de auto-valorização do valor com os seus desdobramentos históricos na contemporaneidade. Ao integrar, na denúncia dos principais fenômenos do desenvolvimento capitalista na atualidade, os elementos essenciais da vida em nossos dias pondo-os em relação com o seu fundamento no trabalho (abstrato), o Manifesto do Krisis apresenta algo mais que um painel desconexo de fenômenos, apresentando os principais problemas do mundo contemporâneo como efeitos solidários de uma causa comum: vivemos num mundo cujo domínio nos escapa inteiramente, vivemos num mundo regido pelo auto-movimento do valor, em uma palavra, vivemos sob o domínio do trabalho abstrato.

Os fenômenos mais graves do nosso mundo, a começar pela destruição da possibilidade mesma de vida, através do desemprego, para milhões, a destruição da natureza, levada a cabo pelo movimento irracional do capital, a destruição da esfera pretensamente autônoma da política e do Estado, com a diminuição cada vez mais radical do seu papel frente ao desenvolvimento - este sim, sob o domínio da forma-mercadoria, verdadeiramente autônomo - da economia, articulados, tais fenômenos, com a uniformização, na esfera mesma da vida cotidiana, das posturas, das expectativas individuais, cuja pretensa diversidade - no âmbito da sociedade do trabalho (abstrato) - se representa na farsa democrática na esfera da política, são apresentados com uma riqueza de reflexões e um vigor de estilo que só a crítica apaixonada e o verdadeiro asco diante do existente podem suscitar.

Ao apontar nas ilusões estatistas - tanto da esquerda quanto da direita - a vigência plena dos princípios da sociedade do trabalho (abstrato), o Manifesto do Krisis aponta um elemento certamente essencial para a crítica revolucionária do presente: toda a ilusão de que o Estado, como agente de "desenvolvimento", como princípio de "correção" dos excessos do mercado ou como expressão de uma ruptura "revolucionária" com a propriedade privada, possa de algum modo intervir no sentido de uma transformação real dos problemas provocados pelo império do trabalho (abstrato) está fundada na absoluta crença, ainda que nem sempre claramente explicitada, de que é possível, de algum modo, sem romper com a lógica cega de auto-valorização do valor, sem romper com o domínio do trabalho (abstrato),de dentro mesmo da sociedade do trabalho (abstrato), administrar, minorando os seus efeitos, a crise profunda que a envolve e abala desde os fundamentos. Tal ilusão - e nesse sentido bem o demonstra o fracasso das sociedades estatistas do Leste europeu - está fadada, no momento presente, não só ao absoluto fracasso enquanto negação da sociedade do trabalho (abstrato), uma vez que a afirma ao contrário de negá-la, mas, sobretudo, nas condições atuais, a um fracasso generalizado frente à situação limite a que uma sociedade fundada no tráfico de mercadorias é levada pelo mais absoluto esgotamento da sua capacidade de incluir os valores - sobretudo e antes de todos, o da própria força de trabalho - no mercado.

A vigência da lei do valor é um processo histórico-social que ou é negado em seus fundamentos - e portanto abolida como forma hegemônica de mediação das relações entre os homens - ou permanece como fundamento da vida humana mesmo onde não exista - como nas sociedades do Leste - uma apropriação privada dos meios de produção. O domínio do trabalho (abstrato), através do tráfico mundial de mercadorias, há que ser negado em seus fundamentos e em conjunto ou tal negação será, a exemplo de todo o movimento operário em nosso século, integrada à perspectiva da sociedade do trabalho (abstrato). A falência do estatismo é, assim, o resultado da própria falência da sociedade do trabalho (abstrato) na qual construiu-se, por um curto período histórico, a ilusão da autonomia estatal. Se na sociedade do trabalho (abstrato) o Estado esteve sempre fundado e dependente do desenvolvimento autônomo da economia, com o esgotamento definitivo das fontes de financiamento propiciadas pelo último período ascendente da economia capitalista, o adeus ao Estado levado a cabo em todos os recantos do globo é, antes que expressão de um predomínio neoliberal na esfera da política, expressão da concentração monopolista e da exclusão definitiva da maior parte da humanidade do processo produtivo. A política, agora como antes, numa sociedade fundada no domínio da economia, só reconhece e expressa aquilo que já é realidade no âmbito da não-vida verdadeira da economia: já não há mais lugar para um Estado cujas fontes de financiamento esgotaram-se definitivamente.

Toda a negação cotidiana de uma existência humana pluridimensional foi, ao longo dos últimos séculos, constituída e aprofundada segundo a submissão ao princípio do trabalho (abstrato). Em nosso século, não só o tempo de trabalho, mas todas as dimensões da existência cotidiana foram submetidas ao princípio do trabalho (abstrato). Desde a relação com a natureza, com o "tempo livre", às relações inter-étnicas, amorosas, toda a vida cotidiana aprofundou a submissão à lógica do trabalho (abstrato). A não-vida verdadeira da submissão de todas as dimensões da existência humana à lógica do trabalho (abstrato), a "economização" da vida é, no Manifesto, apontada com a mesma ênfase apaixonada que caracteriza os demais momentos do texto. O Manifesto nos conclama, aos "inimigos do trabalho", aos que não "tornamo-nos incapazes de pensar", ao combate à sociedade do trabalho e, curiosamente, continuando a paráfrase ao Manifesto de Marx e Engels, conclama, no seu final, aos "proletários de todo o mundo" para que ponham um fim nisso. Por que curiosamente?
Do trabalho e do abstrato

Ao longo de todo este texto, toda menção ao trabalho veio sempre acompanhada de um "abstrato" entre parênteses. O uso dos parênteses quer aqui significar a ausência da categoria "trabalho abstrato" no texto do Manifesto do Grupo Krisis. Com efeito, em nenhum momento do Manifesto aparece uma crítica ao trabalho abstrato mas uma crítica ao trabalho simplesmente ou uma crítica ao trabalho enquanto tal. Se no início deste artigo foi dito que o Manifesto do Krisis poderia parecer, a uma primeira vista, uma atualização da crítica revolucionária do Manifesto de Marx e Engels, seguido de uma menção a um equívoco fundamental que permeia todo o texto do Manifesto do Krisis, sugerindo, com isso, uma carência fundamental, isso se referia, precisamente, ao trato inteiramente problemático dado ali à categoria trabalho. Não se trata, aqui, de algum "purismo ideológico", de uma defesa da ortodoxia categorial, aliás, não se trata, absolutamente, de ideologia. A questão é bem outra...

Toda a força da reflexão teórica de Marx - é isso o que a mantém atual enquanto se mantiver a vigência do tráfico de mercadorias como fundamento da existência humana - está em que ela se constituiu na mais radical crítica dos fundamentos de uma sociedade historicamente dada, a sociedade capitalista. É enquanto crítica da sociabilidade no capitalismo, enquanto crítica da economia política que se estrutura o pensamento de Marx e nessa medida, na medida em que é crítica social, precisamente o oposto de uma ideologia, é que se encontra a sua força. Não se trata, assim, de discutir Marx ideologicamente. Trata-se, antes, de discutir a própria dinâmica histórica, na sua riqueza e concretude, como o fez Marx, para compreender a especificidade daquilo a que o grupo Krisis chama de trabalho e que Marx chamava de trabalho abstrato, como condição de uma crítica radical do presente. A correta compreensão desta questão, penso, nos ajuda a ir além de onde o Manifesto do Krisis o pôde, em função - e isso não é um mero trocadilho - de sua análise abstrata da categoria trabalho.

Marx parte, em sua crítica da economia política, da identificação daquilo que constituiria o modo próprio de ser da atividade humana sob o capitalismo: o que determina o capitalismo enquanto tal é a submissão de toda a atividade humana à lógica da produção de mercadorias, a submissão dos vários trabalhos concretos à lógica do trabalho abstrato. É porque no capitalismo os valores de uso - aqueles objetos que na vida cotidiana são objeto da fruição - são transformados em meros suportes materiais do valor de troca, ou do valor - ou seja, não interessam mais quanto ao seu valor na fruição, mas contam apenas na medida em que podem se equivaler no tráfico - que as atividades humanas concretas se submetem ao trabalho abstrato, ou seja, ao trabalho destituído de qualquer conteúdo determinado, aparecem, pois, na forma abstrata do tempo de trabalho. Este processo de submissão dos valores de uso à abstração do valor, como valor de troca, se manifesta na esfera da circulação generalizada das mercadorias, na qual parece não haver relação entre homens mas, precisamente, entre coisas.

Ora, este processo de submissão da atividade criadora do homem ao horizonte da troca privada, do tráfico, é, enquanto caracteriza aquilo que é o coração do capitalismo, uma forma histórica bastante determinada. Para Marx, a descoberta das determinações da produção capitalista, a lei do valor, é a determinação de um momento histórico específico das relações humanas, ou seja, não se trata de pensar a atividade humana submetida ao tempo de trabalho - o trabalho abstrato - como uma característica "humano genérica", mas de compreendê-lo como produção histórica bem determinada. O que torna possível, em Marx, a crítica da economia política é exatamente a distinção radical entre a categoria trabalho - como dimensão ontológica do existir humano - e a forma histórica concreta do trabalho no âmbito da produção capitalista, o trabalho abstrato.

A confusão, manifesta ao longo de todo o texto do Krisis, entre estas duas dimensões inteiramente distintas, tem resultados graves. Não se trata, simplesmente, de substituir, no Manifesto do Krisis, a palavra "trabalho" pela expressão "trabalho abstrato" e está resolvido o problema. Na verdade, confundir o trabalho, enquanto este é uma dimensão fundante daquilo que é o homem, ou seja, em sua dimensão ontológica, com uma forma histórica específica e transitória assumida por tal atividade, significa perder de vista aquilo que de fundamental marcou a contribuição crítica de Marx à sociabilidade na modernidade.

A análise de Marx da sociabilidade no capitalismo parte de uma ruptura fundamental com o horizonte hegeliano em particular e com toda a tradição do pensamento no ocidente, de modo mais geral: a ruptura com uma idéia de história entendida como realização de uma trajetória exterior aos objetivos propriamente humanos. Isso significa, do ponto de vista da crítica do capitalismo, que este é entendido como uma construção histórico social determinada, inteira e exclusivamente dependente dos atos sociais humano-concretos. Trata-se, antes de mais nada, de entender que os fundamentos presentes em um momento da vida social são o resultado do agir humano coletivo e não uma qualquer encarnação da "Idéia" ou da "providência divina". É exatamente nessa compreensão que se determina toda a crítica teórica de Marx - quanto à compreensão da categoria trabalho - tanto a Hegel como à Economia política clássica. Se a crítica teórica do trabalho entendido em sua positividade - ou seja, como "construtor de riqueza humana" - está no cerne da crítica à economia política (crítica aos fundamentos mesmos da sociabilidade sob o domínio capitalista ), é exatamente na medida em que Marx rompe com um tratamento metafísico do problema do trabalho. Quem transforma o trabalho em trabalho abstrato é a sociabilidade fundada na forma-mercadoria, mas esta, longe de significar uma verdade eterna e natural, é tão-somente um modo possível da existência do trabalho enquanto atividade de auto-produção humana.

Quando o Manifesto do Krisis reconhece o trabalho apenas como trabalho abstrato toma-o somente numa das dimensões que Marx havia compreendido em sua crítica à economia clássica e ao hegelianismo: na sua dimensão negativa. Nessa medida, apreendido em sua negatividade, o trabalho - como trabalho abstrato, sob o capitalismo - é tratado criticamente. Com efeito, é no duplo caráter do trabalho - "construtor de riqueza e de miséria humanas" - que encontramos o cerne da crítica marxiana do mundo regido pela mercadoria. Entretanto, quando o Manifesto trata do trabalho apenas em sua negatividade, termina por atribuir uma dimensão verdadeiramente metafísica - abstrata e a-histórica - ao trabalho abstrato. Ao apontar a dualidade da categoria trabalho Marx põe, pela primeira vez, a possibilidade de uma análise rigorosamente terrena da sociabilidade humana, a possibilidade da compreensão das formas históricas da sociabilidade como resultado da ação recíproca dos homens. É exatamente pelo caráter dual da atividade humana - enquanto esta não é consciente da sua própria natureza social - que é possível, em Marx, pensar uma transcendência revolucionária do existente. Em outras palavras: é exatamente na medida em que concebe a atividade de auto-produção - trabalho - como o fundamento das formas históricas da existência humana que Marx, ao pensar a sociabilidade humana em sua história e em particular sob o capitalismo, vê na dualidade essencial expressa no trabalho - historicamente fonte tanto da riqueza material como da miséria da maioria da humanidade - a possibilidade mesma da sua superação. É porque, finalmente, são os homens os construtores das próprias cadeias que os prendem e porquê a sua existência cotidiana é toda ela permeada por esse dualismo essencial que é possível pensar um destino outro para a humanidade que o da eternidade do aprisionamento do trabalho à forma do trabalho abstrato.

Ora, no Manifesto do Krisis a incompreensão desta diferença crucial se apresenta de dois modos, distintos mas absolutamente interligados: num primeiro momento ela se apresenta na forma mesma da incompreensão conceitual, ou seja, em todos os momentos nos quais o Manifesto se refere ao trabalho só diz dele na forma do trabalho abstrato; num segundo momento, esta incompreensão, desdobrada na análise das lutas sociais ao longo do nosso século, toma a forma da identificação simples de toda a luta do proletariado como luta interna à lógica do trabalho abstrato.

Do ponto de vista conceitual, é precisamente o dualismo da categoria trabalho que permite, como já dissemos, pensar uma negação do trabalho abstrato. Na medida em que é fundamento do agir humano, em que é manifestação da liberdade humana, o trabalho é, ele próprio, o movimento de auto-constituição do homem enquanto tal. A crítica de Marx ao trabalho enquanto trabalho abstrato - ou seja, a crítica da forma-mercadoria - repousa, não numa crítica de natureza moral ou ideológica, mas no fato de que o trabalho abstrato é o reinado da não-liberdade na medida em que faz desaparecer o ato livre - que se manifesta tanto na produção mesma do mundo como na sua fruição - sob a abstração da atividade concreta que transforma as relações entre homens em relações entre coisas. Ora, é precisamente na medida em que a liberdade - constituída mediante o trabalho, enquanto trabalho concreto, útil - é negada, que é possível pensar a recusa desta negação como construção da liberdade, ou seja, é porquê os homens não cessam de reafirmar contraditória e cotidianamente a sua liberdade junto à sua não-liberdade que é possível pensar uma superação do domínio das relações mercantis.

Ora, a crítica de Marx à forma-mercadoria e à coisificação do homem que lhe é imanente é fundada numa análise concreta de relações efetivas que são em si mesmas contraditórias. O dualismo segundo o qual Marx pensa a categoria trabalho expressa, deste modo, uma contradição posta e reposta pela atividade mesma do homem sob o domínio das relações mercantis e exige, por isso mesmo, uma análise do desenvolvimento histórico concreto de tais relações como fundamento permanente da possibilidade da sua crítica. Ele é, assim, o ponto nodal da crítica teórica de Marx à economia política, na medida mesma em que é o fundamento prático, condição de possibilidade de tal crítica.

Mas o que significa, fundamentalmente, uma análise concreta das relações humanas sob o domínio do trabalho abstrato? Se pensamos a crítica do capitalismo, do domínio do trabalho abstrato como crítica de relações humanas postas sob a forma de relações mercantis, não é suficiente falar da coisificação imanente ao trabalho abstrato, pois que esta não nos diz senão do princípio lógico que rege tais relações, mas é necessário ir além, analisando as relações elas mesmas, em cada momento histórico em que estas se produzem, capturando-as, assim, em sua concretude e complexidade. É aqui que encontramos o segundo problema do Manifesto do Krisis. O Manifesto, em sua critica do trabalho abstrato é inteiramente dominado pela lógica: deduz, simples e logicamente, da crítica da coisificação imanente à produção de mercadorias todo o processo de desenvolvimento histórico do capitalismo em nosso século. Como toda "boa" dedução, eventualmente acerta (é o que acontece na análise dos fenômenos do capitalismo na contemporaneidade que apontamos no início deste texto, o que constitui, precisamente, toda a força crítica do Manifesto); porém, também como toda "boa" dedução, ao abstrair-se inteiramente da concretude, abstrai-se inteiramente da contradição.

Quando o Manifesto apresenta as lutas dos trabalhadores em nosso século como lutas situadas no âmbito da lógica do "trabalho", ou seja, do trabalho abstrato, ele diz uma verdade. Mas diz, ao mesmo tempo, mais e menos do que deveria. Como isso se dá? Quando critica "o movimento clássico dos trabalhadores" em sua limitação por reivindicações situadas na lógica da produção mercantil, o Manifesto aponta - corretamente - o horizonte limitado, do ponto de vista da espontaneidade, da maior parte das lutas levadas à cabo pelo proletariado desde o século passado. Mais que isso, o Manifesto critica todo o discurso clássico da esquerda enquanto este é inteiramente limitado ao horizonte do trabalho (abstrato). Mas ao tratar do ponto de vista puramente lógico a pertinência dos horizontes das lutas "de interesses" - do proletariado - à lógica da produção mercantil, o Manifesto desconhece dois aspectos fundamentais e absolutamente interligados
Da recusa e da derrota

O que em primeiro lugar o Manifesto desconhece solenemente é que, se pode ser dito que os movimentos de luta dos trabalhadores limitaram-se, via de regra, à dimensão reivindincatória que foi/é integrada à lógica da produção mercantil, do ponto de vista das reinvindicações mesmas - limitadas à lógica do mundo do tráfico - isso não significa, absolutamente, uma ausência de crítica prática das relações mercantis, ainda quando esta seja limitada e não se compreenda como crítica do trabalho assalariado enquanto tal. Ora, mesmo no âmbito estreito, por exemplo, da luta sindical, a assimetria fundamental na qual se fundam as relações mercantis não permite uma mera equivalência entre sindicatos de trabalhadores e sindicatos de patrões. É evidente que, em última instância, ambos se encontram presos à lógica das relações mercantis e reforçam o trabalho abstrato. Mas do ponto de vista da existência concreta a situação é bem outra. Se todos, monopolistas, trabalhadores, desempregados, todos enfim, somos submetidos à lógica do trabalho abstrato, o lugar nas relações mercantis que ocupamos ou do qual fomos excluídos é exatamente aquele que nos diz da nossa existência concreta. Assim, mesmo reivindicações "situadas no âmbito do trabalho abstrato" são um sinal de resistência, ainda que parcial, ainda que limitada, às relações mercantis. São uma manifestação de vida que irrompe no âmbito da não-vida... não é à-toa, por exemplo, que as experiências dos conselhos - expressões históricas daquela associação direta à qual nos convida o Manifesto em suas linhas finais - nascem neste âmbito parcial e limitado, e no seu desenvolvimento - é esta a segunda questão que o Manifesto ignora - ou foram/são integradas à institucionalização que as aprisiona no âmbito das relações administradas que caracterizam o domínio do tráfico e da política ou foram/são fragorosamente derrotadas.

O que o Manifesto desconhece, simplesmente, é a complexidade da realidade das lutas sociais em nosso século, abstraindo, assim, o percurso, a construção histórico-concreta feita por milhões de mulheres e homens, para fixar-se, simplesmente, nos resultados, que, afinal, melhor se adequam à escatologia do valor na qual foi transformada a história pelo Manifesto. No fundo, se a conclusão quanto ao limite histórico ao qual chegou o capitalismo em nossos dias é verdadeira, só o é na medida em que as iniciativas do movimento operário de transcendência do universo das relações mercantis foram derrotadas e não por uma qualquer lógica a-histórica. Se os soviets, a insurreição alemã de 19, para citar somente alguns, foram derrotados em sua pretensão de marchar para uma revolução européia que abalaria os fundamentos da produção mercantil como modo hegemônico de vida no mundo, tal derrota há que ser reconhecida como o elemento fundamental a partir do qual o nosso mundo contemporâneo veio a se constituir no que é. Trata-se, antes de mais nada, de reconhecer, por um lado, que as relações mercantis foram postas sim em questão, e não apenas uma vez neste século, mas que a negação foi derrotada. Por outro, trata-se também de reconhecer que é exatamente esta derrota que funda a permanência das relações mercantis e a sua configuração atual. A situação limite a qual chegamos, de crise terminal da sociedade do trabalho abstrato a partir das suas próprias contradições, é resultado, fundamentalmente, da derrota do movimento operário.

Que a esquerda, em sua maioria, tenha tido - ao longo de todo o nosso século e ainda hoje - uma postura modernizadora, que ela tenha sido uma variante apenas no âmbito das relações mercantis, isso nada diz do movimento de luta anticapitalista desenvolvido desde o século passado.

Ora, o "pecado original" do Manifesto é, finalmente, o domínio da abstração na crítica do trabalho abstrato. Se ele acerta, como dissemos, nos aspectos centrais de sua análise do mundo contemporâneo, isto se dá na medida mesma em que ele se funda numa crítica genérica do trabalho abstrato. Mas é na medida mesma dessa abstração que a crítica apresenta sua insuficiência mais radical. O Manifesto nos diz que "a ruptura categorial com o trabalho (abstrato) não encontra nenhum campo social pronto e objetivamente determinado", querendo, com isso, apontar a necessidade da constituição de uma consciência negadora como fundamento da possibilidade de ultrapassagem da sociedade do trabalho. Ao mesmo tempo, recusa a idéia de um fim último da história, cuja encarnação seria o proletariado, versão tristemente predominante no marxismo do nosso século. Há aqui a clara intenção polêmica com toda esta tradição do marxismo que entendia o proletariado como "messias" dado objetivamente na história. Se esta crítica é inteiramente correta, dela não seguem, como uma conseqüência puramente lógica, as conclusões que daí retira o Manifesto. Que o "asco" diante do existente seja aquilo que deve fundamentar a sua recusa, não significa, como pretende o Krisis, que o ponto de partida do asco seja a "recusa teórica do trabalho", constituída a partir de um "campo intelectual livre". Antes, penso, assim como a crítica teórica de Marx à Economia política partiu da crítica prática posta em movimento pelo proletariado do século XIX, todo o debate teórico contra o trabalho abstrato - ou seja, contra o mercado e contra o Estado - deve partir do reconhecimento de que as experiências de luta na contemporaneidade, de resistência espontânea ao domínio do mercado e do Estado são o campo mais fértil para a crítica prática do trabalho e são, nessa medida, o lugar possível no qual está em jogo o destino da humanidade diante da crise da sociedade do trabalho abstrato.

Ora, o que está em jogo aqui é, evidentemente, algo crucial. Trata-se de reconhecer que, do ponto de vista de sua existência presente - único lugar a partir do qual é possível pensarmos a existência humana -, não há "homens ", não há individualidade autêntica. O domínio da abstração que funda o capitalismo, denunciado tão vigorosamente ao longo de todo o manifesto é, entretanto, "traficado" de modo curioso para o seio mesmo daquela que é apresentada como a sua recusa. Propor o "debate teórico contra o trabalho" (abstrato), propor "uma nova interpretação do mundo", um "espaço intelectual livre" significa a rendição mais absoluta ao domínio mesmo da abstração chamada "indivíduo" - o indivíduo cindido que o Manifesto mesmo critica, ou seja, o "cidadão", o "produtor" ou ainda, a "consciência" - na medida exata em que tal consciência é ali apartada da existência, é pensada como consciência teórica que pode "construir um movimento de prática social contra o trabalho", supondo, por isso mesmo, que a crítica é primeiro crítica teórica, depois crítica prática. Ora, o problema é que precisamente aí o Manifesto incorre num erro grave que marcou o marxismo em nosso século: o de apartar teoria e prática, tomando uma ou outra como referência a partir da qual deve se dar a transformação do mundo.

O estatismo vanguardista do kautski-stalinismo - que via a revolução como "marcha objetiva da história" e, portanto, em cada ação do movimento operário uma encarnação dos seus desígnios - ou trotskista, que atribuiu todas as derrotas do movimento operário à "traição das direções", resguardando, assim, a "pureza imaculada" do proletariado, são faces solidárias de um mesmo equívoco fundamental: a crítica do capitalismo é inteiramente submetida à ideologia, ou seja, à fixação prévia de um campo de luta "objetivamente" anticapitalista pensado, em si mesmo, como portador da "verdade histórica da revolução proletária". É evidente que o Manifesto não incorre neste equívoco... comete, porém, um outro, conceitualmente idêntico, embora com o sinal invertido. Tratam-se, ambas, de abstrações que situam a crítica da sociabilidade capitalista além ou aquém da existência histórica, da existência cotidiana. Trata-se, em ambos os casos, de uma encarnação seja da "missão histórica", seja da "consciência", num sujeito abstraído de determinações históricas, de classe, de cor, de rosto, de sangue, de sexo, inteiramente carente de concretude, enfim.

Quando propõe a consciência teórica como móbil da crítica prática, o Manifesto prostra-se de vez aos pés da abstração, destituindo de sentido toda a resistência - embora parcial, limitada e, por isso mesmo, submetida ainda ao horizonte do trabalho abstrato - levada a cabo por milhares de trabalhadores, de desempregados, de minorias étnicas, raciais, sexuais... em nosso planeta.

Não se trata de ver nestas lutas uma nova encarnação da "missão histórica". Mas tampouco trata-se de simplesmente situá-las no âmbito da "consciência presa à forma-mercadoria" e equivalê-las, por exemplo, às tentativas do Banco Mundial de reverter a "má distribuição de renda" como tentativa de salvação da crise da sociedade do trabalho. Só uma absurda abstração - semelhante àquela que se realiza na forma-mercadoria - pode equivaler ações tão distintas, tomando-as simplesmente como "dados". Se na ação do Banco Mundial se explicita uma tentativa inteiramente situada no horizonte da troca, assim como são situadas no horizonte da troca a luta por emprego, a reivindicação de "direitos políticos" etc., é evidente que não se trata da mesma realidade, que não se trata do mesmo horizonte vivido, que não se trata da mesma coisa. É preciso compreender que as lutas sociais, ainda quando limitadas ao horizonte da troca, são momentos de resistência, de explosão de vida que se recusa à capturação total pelas teias das relações mercantis, que elas são, assim, o único ponto de partida no qual se manifesta já, presentemente, o potencial da crítica prática do trabalho abstrato como crítica de totalidade. Este campo de resistência - explicitado em sua forma mais radical nos levantes e insurreições desta década, nas recentes greves operárias, como as greves de caminhoneiros franceses ou dos operários da Renault, que já reconhecem, embora ainda limitada ao campo da "luta de interesses", o caráter necessariamente mundial mesmo da sua luta parcial reivindicatória - não significa, é evidente," um campo objetivamente dado", no sentido de um campo pronto, mas significa sim um campo objetivamente fértil de crítica prática - ainda que parcial - da sociedade do trabalho abstrato, ou seja, um campo objetivamente possível de luta anticapitalista, de luta contra o mercado e o Estado. É desse modo, penso, que a conclamação final do Manifesto: "proletários de todo o mundo, ponham um fim nisto", pode ter um sentido mais que meramente estilístico, dando, assim, vida e concretude à crítica do trabalho abstrato.


Publicado na revista Contra a Corrente nº 9.