Individualismo à italiana.

 

por Carlo Romani *

 

Numa das sessões do Congresso Socialista realizado em 1901, G. Berti começou os trabalhos relatando as condições de vida dos trabalhadores rurais da província de Arezzo:

“Os pigionali são famílias dispensadas, nem sempre justamente, pelos feitores e patrões; formam cerca de 35% da população rural e representam a parte mais pobre, mais sofredora e mais embrutecida... Trabalham em média 150 dias ao ano e recebem um salário que varia segundo os lugares, a benevolência e a ganância de quem os chama...

...O mesquinho balanço destes pobres parias da terra explica muito bem qual possa ser sua qualidade de vida e o nível de moralidade e honestidade, que podem alcançar, especialmente se temos em conta que eles pagam 40 e até 50 liras ao ano pela cessão da casa quase sempre precária ou insuficiente para defendê-los dos rigores do inverno e que são obrigados a encontrar nos furtos campestres o complemento daquilo que é estritamente necessário à sua sobrevivência.”[1]

A opinião socialista sobre a moralidade daqueles “parias” não diferia muito daquela feita pelos anárquicos italianos mais conceituados. O furto era, dentro de uma vasta parcela do pensamento anarquista, como no humanismo libertário de Malatesta, uma distorção. Por demais éticos para aceitar o roubo, Malatesta e seguidores o viam como uma contradição inerente ao próprio sistema capitalista. Para eles, há roubos porque há distorções no capitalismo e estes atos são uma das evidências da necessidade de superação do sistema. Já para boa parte dos anarquistas comuns, dos militantes das vilas, das cidades, daqueles que “praticavam” cotidianamente o anarquismo, o furto era uma forma legítima de expropriação do capital burguês obtido através da mais-valia. Para estes, que mesmo sem o serem aproximavam-se das idéias dos anárquicos individualistas, a expropriação era praticada num sentido coletivo de auxílio e fortalecimento da causa operária, visando a organização de reuniões, de viagens de propaganda e intercâmbio, financiando, principalmente, uma vasta parcela de opúsculos e impressos anarquistas clandestinos.

Na Itália da Segunda metade do século XIX, mesmo nos períodos de maior liberdade de expressão, as idéias socialistas revolucionárias e as anárquicas, contrárias à monarquia e à ordem burguesa constituída, sempre circularam clandestinamente ¾ não tendo um espaço oficialmente permitido de veiculação ¾, junto aos trabalhadores. Nesse ambiente repressivo os desempregados e os trabalhadores braçais sem emprego fixo passaram a se reunir nos bares e na osteria como extensão da praça, lá ocupando seu tempo ocioso e vislumbrando possibilidades de trabalho e sobrevivência. Entre um gole e outro de vinho circulavam as notícias sobre os últimos acontecimentos e propagavam-se novas idéias. Para o pesquisador Monteleone, a osteria serviu como “o refúgio confidencial da solidão, uma reserva confortável e quase inesgotável de falantes e ouvintes entre os quais circulavam sentimentos e idéias, em um fecundo intercâmbio”[2]. Nos últimos decênios do século passado transformaram-se, com a conivência de seus proprietários, no único lugar seguro para as reuniões proletárias de cunho político.

Fruto de uma das periódicas crises econômicas, o aumento do desemprego ocorrido no início da década de 1880 acabou trazendo outros elementos aos bares, engrossando assim o caldo humano integrante deste ambiente da “cultura da praça”. São o estudante, o jornalista e o artesão empobrecido, que fechou seu negócio e perdeu seus clientes, também empobrecidos, que desceram, por necessidade, à categoria de trabalhadores diaristas, eventuais, à cata de um esporádico trabalho que viesse a surgir. Freqüentadores dos cafés, um bar um pouco mais sofisticado, um espaço mais recente de convivência, onde liam os jornais e travavam discussões sobre a política italiana, esta pequena burguesia decadente passa a ser um outro pilar de propaganda do anarquismo, fazendo circular os periódicos do movimento e trocando informações com os ativistas proletários.

Estabeleceu-se, desse modo, uma ponte entre os cafés e os bares, incrementando, entre o pensamento e a ação, uma nova forma de organização política. O extrato mais baixo do proletariado, os braccianti, em contato com um discurso teórico do socialismo, apropriou-se gradativamente das premissas teóricas anarquistas rejeitando, porém, as práticas de luta da pequena burguesia. A reação desse novo contingente anarquista reunido no bar contra a exploração de quem os dominava passou a ser sistemática: a realização de furtos campestres e o incremento dos bandos armados. Explicam-se dessa maneira as cartas ameaçadoras aos patrões, os incêndios e os atos de sabotagem como fazendo parte de uma ação coletiva coordenada e não mais somente de práticas individuais movidas pela fome e desespero. É dessa união entre as práticas isoladas adotadas pelos braccianti, com a teoria que sustenta o discurso libertário de ação direta, que surge um embrião socialista não legalitário entre estas camadas despossuídas da população.

Nesse contexto italiano da década de 1880, as tendências anarquistas dividiam-se, a grosso modo, em individualistas e associacionistas. Os primeiros, genericamente, rejeitavam toda e qualquer forma de organização política como instrumento de ação. Já os segundos entendiam como necessária a existência de uma estrutura organizativa mínima dentro da sociedade, sem que esta implicasse relações de autoridade e hierarquia. Na história italiana a corrente individualista de maior penetração foi a antiorganizadora. O vácuo existente nos movimentos sociais italianos no início dos anos oitenta, que somente veio a ser superado no final da década, “favoreceu a difusão de um anarquismo que primeiro instintivamente e depois em modo mais programático racionalizava esta desorganização de fato e rejeitava qualquer forma de associação geral e permanente”[3].

Em seu trabalho sobre as concepções de direito, crime e justiça dos anarquistas italianos, Pio Marconi entende haver uma aproximação, ainda que inconsciente, com o individualismo de Max Stirner. A expropriação (furto justificado na perspectiva de uma sociedade na qual será abolido o privilégio da propriedade privada) parece representar na prática a aplicação das hipóteses stirnerianas sobre a transgressão.[4] Stirner considerava a transgressão como um instrumento de afirmação do Eu nos confrontos contra o Estado e a cultura dominante[5]. Provavelmente sem terem lido Stirner, cujos textos somente vieram a circular com maior intensidade na Itália após a tradução de sua obra em 1902, os camponeses diaristas italianos já agiam transgressivamente, praticando um anarquismo que, primeiro por necessidade e depois por convicção, aproximava-se muito de algumas práticas teorizadas pelo individualismo.

No Brasil, estas práticas individualistas à italiana chegaram em 1904, na pele daquele que foi, segundo Everardo Dias, “o maior agitador já surgido em terras brasileiras”[6]: Oreste Ristori. De fato, segundo os relatórios policiais, este libertário não era dos mais comportados.

“Das práticas de investigação resulta que Ristori é um anarquista exaltado, de alma má, avesso ao trabalho, capaz de qualquer ação delituosa. Possuía uma brochura anarquista com métodos de fabricação de explosivos, porém não encontrada na perseguição que lhe foi feita...

...Desde 1894 era considerado das autoridades de P.S. como anarquista, exaltado, prepotente e temível...”[7]

Alma má, vagabundo, exaltado, violento. Oreste, filho de uma família de camponeses sem terra e sem emprego fixo, nascido na Toscana em 1874, não era propriamente o tipo de homem que a polícia, a burguesia e os padres gostariam de ter em sua paróquia. Ristori foi um desses adolescentes que muito cedo aprendeu a “se virar na vida”, fazendo pequenos rolos para conseguir sobreviver. Sem instrução, sem grandes perspectivas de vida, foi aproximando-se desses anarquistas que se constituíram nos mercados e bares ao redor das praças. A partir dos dezessete anos de idade foi elaborando, de modo intuitivo, um discurso teórico que ouviu nos bares que freqüentou, pondo-o em prática naquelas ações transgressivas que denominamos de individualismo à italiana.

Com o passar dos anos, Ristori foi modificando suas práticas, aproximando-se do comunismo anárquico. Já no Brasil, Oreste Ristori tornou-se o diretor responsável pela publicação do principal periódico anárquico do país, que funcionou em São Paulo, entre 1904 e 1913, com o nome de La Battaglia. Moveu intensa campanha contra a imigração ao Brasil, combatendo a exploração de colonos nas fazendas de café. Fez também ativa propaganda dentro do meio operário paulistano, nas portas de fábrica e incentivou a implantação de escolas libertárias para os filhos desse proletariado em todo o Estado de São Paulo. Enfim, passou 32 anos entre nós dando muito trabalho àqueles que praticam a opressão como regra de vida, até ser expulso definitivamente do país, em maio de 1936, como elemento indesejável ao governo de Getúlio Vargas.[8]

 

*Carlo Romani é historiador.

[1] Cit. in Ernesto RAGIONIERI, La questione delle leghe e i primi scioperi dei mezzadri in Toscana. Movimento Operaio, Milão, n º. 3-4, maio-agosto/1955, a. VIII, pp. 457-458.

[2] R. MONTELEONE, Socialisti o “ciucialister? Il PSI e il destino delle osterie tra socialità e alcoolismo, in “Movimento Operario e Socialista”, 1985, n º. 1, p. 13.

[3] Pier Carlo MASINI, Storia degli anarchici italiani. Da Bakunin a Malatesta. Milão. BUR, 1974, p. 226.

[4] Pio MARCONI, Libertá Selvaggia. Veneza. Marsilio Editori, 1979. p.37.

[5] Sobre Max STIRNER, ver a obra completa L’unique et as propriété et autres écrits. Lausanne. Bibliothèque L’Age D’Homme, 1972.

[6] Everardo DIAS, História das lutas sociais no Brasil. São Paulo. Edaglit, 1962, p. 246.

[7] Cenno biografico al giorno, de 12.08.1896, CPC, busta 4342, Archivio Centrale dello Stato, Roma.

[8] Informações mais detalhadas sobre este personagem podem ser encontradas na biografia realizada por Carlo ROMANI, Oreste Ristori: uma aventura anarquista. Mestrado em História, UNICAMP, 1998.